Cabral e a “privatização” do Galeão

As privatizações no Estado do Rio têm história longa, tumultuada e cheia de interesses. Esses interesses às vezes coincidiam e "passavam" tranqüilamente. De outras se hostilizavam e não eram aprovadas.
Houve um tempo em que Marcelo Alencar, governador, e Sérgio Cabral, eterno presidente da Alerj, eram amicíssimos, intimíssimos, ligadíssimos. Marcelo havia deixado de fumar, colocou ar-refrigerado no seu gabinete no Guanabara, fumaçaria lá dentro de jeito algum.
Só havia uma exceção: para Sérgio Cabral. Este ia sempre lá, beijava Marcelo "nas duas faces", puxava um cigarro, se deliciava. Não tanto por causa da droga, mas pela surpresa e assombro de tantos. Mas amigos são amigos, até mesmo na "drogagem".
Essa amizade ficou provada na doação-privatização-vergonhosa-escandalosa do Banerj. Foi entregue ao Itaú, mas era tão arriscada em relação ao Ministério Público que teve primeiro que ser entregue ao senhor Julio Bozzano, então proprietário do Banco Bozzano & Simonsen. Seu banco estava falido e não se sabia. (O conhecimento desse estado de falência se tornou público quando Julio Bozzano foi candidato a presidente do Jóquei Clube. Ia perder mesmo, perdeu mais facilmente).
Sérgio Cabral estava de acordo com o governador, a doação-privatização não sofreu qualquer tropeço, não teve que enfrentar obstáculos. Como estava combinado, depois de um estágio na "coudelaria" de Julio Bozzano, iria para o Itaú. E foi, durando até hoje.
E mais grave: qualquer pagamento que o cidadão tenha que fazer ao Estado do Rio, O-B-R-I-G-A-T-O-R-I-A-M-E-N-T-E tem que ser no Banerj, "itaulizado". No momento em que qualquer pagamento pode ser feito até em casa lotérica, a força do banco paulista é invencível.
Mas surpreendentemente esse "mar-de-rosas-lua-de-mel", que parecia sem fim entre Sérgio e Marcelo, foi rompido violentamente por causa de outra doação-privatização: a da Cedae.
Inacreditavelmente o rompimento veio da parte do presidente da Alerj, que acusou violentamente o filho do governador, Marco Aurelio Alencar. Este (mais do que notório) era tudo no governo, capitalizado por ele. Mas o último a fazer qualquer denúncia contra alguém seria Sérgio Cabral.
A confusão foi terrível. O governador enviara mensagem à Alerj, propondo a privatização da Cedae. Nem imaginava que o presidente da Alerj fosse ficar contra. Mas ficou e de forma violenta, ele é destrambelhado. O governador foi derrotado, a mensagem foi derrubada tranqüilamente. Anthony Garotinho já era governador eleito. (Ganhou fácil de Cesar Maia). Não tomara posse, mas ficou contra a doação-privatização.
Só que Sérgio Cabral foi ainda mais insensato do que sempre. Distribuiu um dossiê com acusações detalhadíssimas sobre o filho de Marcelo. Só que o governador estava preparado, e em defesa do filho jogou na praça outro dossiê, desvendando os bens de Sérgio Cabral. Este, que jamais trabalhara, tinha bens incalculáveis. Marcelo relacionou tudo, desde os apartamentos, lancha, casa de praia milionária em Mangaratiba, e mais e mais. Só essa casa, 1 milhão de dólares. Está no dossiê.
Sérgio Cabral havia declarado à Receita (Imposto de Renda) salários de 17 mil mensais, o que provocou gargalhadas. Menos na Receita. Sérgio foi chamado, acertou as coisas. (Cesar Maia conhece amplamente esse caminho das pedras entre seus bens e o edifício da Receita).
Agora, Sérgio Cabral fica a favor da privatização da Infraero e dos aeroportos, começando pelo Galeão-Tom Jobim. Era contra a privatização da Cedae, a favor da privatização do Banerj. Quando é que vale a sua convicção? (Convicção? Ha! Ha! Ha!).
Só que o negócio da Infraero movimenta BILHÕES E BILHÕES. Por isso já se ouve o ranger de gavetas se abrindo, falam que dossiês sobre Serginho pousarão em gabinetes importantes. É o dossiê insensato, de revide à sua arrogância tola.
PS - Sérgio, aqui ou em qualquer país onde esteja, afirma: "A salvação dos aeroportos é a privatização". Só no Brasil. Deve ser com dinheiro do BNDES.
PS 2 - Ontem, surpreendentemente, Cabral anunciou que Lula lhe garantiu que apoiará a privatização do Galeão-Tom Jobin. Mais um título "conquistado": o Brasil será o único dos grandes países com aeroporto D-O-A-D-O.
